Cientistas descobriram que bactérias presentes em uma mina de urânio desativada na Alemanha são capazes de estabilizar os níveis de urânio tóxico dissolvido na água, um avanço que pode representar uma nova alternativa para o tratamento de contaminação radioativa em diversas partes do mundo. A pesquisa, conduzida por microbiologistas e ecologistas de recursos do Helmholtz-Zentrum Dresden-Rossendorf (HZDR), na Alemanha, e da Universidade de Granada, na Espanha, foi publicada em junho de 2026 na revista científica Nature Communications e identificou que bactérias anaeróbias podem transformar o urânio dissolvido em água em um material químico estável, reduzindo sua toxicidade e seu risco à saúde humana e aos ecossistemas.
O urânio é um metal altamente radioativo, e a contaminação de água por urânio é considerada um problema ambiental global. Países como Estados Unidos, Índia, Canadá, França, África do Sul e Austrália já registraram, em águas superficiais e subterrâneas, níveis de urânio acima do limite seguro de 0,03 miligramas por litro estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Ministério da Saúde do Brasil. Essa realidade torna a busca por soluções de remediação ambiental uma prioridade científica, especialmente em regiões que abrigam minas de urânio desativadas.
O estudo teve como base a mina Schlema-Alberoda, operada pela Wismut GmbH, uma das maiores minas de urânio da antiga Alemanha Oriental Soviética, desativada em 1990 após a reunificação alemã. Desde o fechamento, a área passa por um processo contínuo e custoso de tratamento de água, já que a mina foi inundada e a água contaminada com urânio representa risco constante. Os pesquisadores descobriram que essa água abriga um ecossistema de micróbios capaz de metabolizar o urânio. Segundo a microbiologista Evelyn Krawczyk-Bärsch, do HZDR, "essas bactérias podem utilizar o urânio dissolvido em água, metabolizá-lo em glicerol e fazer com que eles sejam uma fonte de alimento".
Para comprovar essa capacidade, "os pesquisadores coletaram amostras de água na entrada da estação de tratamento do local, pois, a cerca de 2 mil metros de profundidade, quase não há oxigênio na água da mina". As amostras foram incubadas com glicerol em laboratório, reproduzindo as condições naturais em que essas bactérias vivem. O resultado mostrou que os microrganismos conseguem levar o urânio a um estado pentavalente, com oxidação +5, transformando o elemento em um agente oxidante forte que facilita o "aprisionamento" do metal em minerais estáveis — um processo essencial para reduzir a circulação de urânio tóxico na água.
Os números do estudo reforçam o potencial da descoberta para o tratamento de água contaminada por urânio: "de acordo com o microbiologista Antonio Newman-Portela, da HZDR, após 130 dias, somente 5% do urânio dissolvido em água permaneceu nas amostras". Isso significa que, ao final do experimento, 95% do urânio havia sido estabilizado pela ação das bactérias, um resultado que aponta para o uso de biorremediação como alternativa natural e sustentável frente aos métodos tradicionais de descontaminação, que costumam ser caros e demorados.
Apesar do avanço, os próprios cientistas responsáveis pelo estudo destacam que ainda são necessárias pesquisas mais aprofundadas para determinar até que ponto essas bactérias podem tornar o urânio completamente inofensivo e se o processo pode ser aplicado em escala real em outras minas e reservatórios contaminados ao redor do mundo. Ainda assim, a descoberta representa um passo relevante para a ciência ambiental, a mineração sustentável e o tratamento de água contaminada por metais radioativos, temas que devem ganhar cada vez mais atenção diante do crescimento das discussões globais sobre poluição por urânio, remediação ambiental e segurança hídrica.
