Astrônomos descobriram, pela primeira vez, um açúcar real no espaço interestelar, localizado a cerca de 26 mil anos-luz da Terra. A pesquisa, publicada nesta segunda-feira (13/7) na renomada revista científica Nature Astronomy, traz uma das descobertas mais relevantes da astroquímica recente e fortalece a teoria de que moléculas essenciais à vida podem ter surgido fora do Sistema Solar, chegando ao nosso planeta por meio de cometas e asteroides.
A molécula identificada é a eritrulose, "um tipo de açúcar mais complexo, composto por quatro átomos de carbono." Esse composto integra a mesma família de açúcares fundamentais para a vida, atuando no fornecimento de energia, na formação de estruturas biológicas e na composição do material genético dos seres vivos — tornando essa descoberta espacial extremamente relevante para entender a origem da vida na Terra.
De acordo com o estudo, o açúcar encontrado no espaço interestelar pode ter se originado a partir da poeira cósmica. O meio interestelar funciona como uma verdadeira fábrica química, já responsável pela detecção de mais de 340 moléculas diferentes, "onde várias delas são precursoras de compostos como ribonucleosídeos e lipídios" — substâncias diretamente ligadas à formação de vida.
Embora açúcares bioessenciais, como ribose e glicose, já tivessem sido encontrados anteriormente em meteoritos, a formação natural desses compostos na Terra primitiva é considerada ineficiente pelos cientistas. Até esta descoberta, nenhum açúcar verdadeiro havia sido identificado no espaço interestelar — o que existia era o glicolaldeído, uma substância semelhante, mas que não é classificada tecnicamente como um açúcar.
Método utilizado na descoberta astronômica
Para identificar a eritrulose no espaço, a equipe de astrônomos realizou uma varredura espectral detalhada na nuvem molecular G+0,693−0,027, localizada no centro da galáxia, a uma distância aproximada de 26.700 anos-luz da Terra. Utilizando os radiotelescópios Yebes, de 40 metros, e IRAM, de 30 metros, os cientistas conseguiram identificar 12 conjuntos de linhas espectrais compatíveis com a presença da molécula de açúcar.
Segundo os pesquisadores, "o principal desafio em encontrar açúcar no espaço era a falta de dados de laboratórios em fase gasosa", já que esse tipo de molécula é termicamente frágil e higroscópica, absorvendo e retendo umidade com facilidade. O avanço só foi possível graças à recente "técnica de vaporização a laser ultrarrápida", que superou essa limitação técnica.
Um dado chama atenção na pesquisa: a eritrulose foi encontrada em abundância de 8 a 17 vezes maior do que açúcares menores, de três átomos de carbono. Esse resultado contraria o padrão espacial mais comum, no qual moléculas maiores costumam ser encontradas em quantidades menores — reforçando a relevância científica dessa descoberta astronômica.
Implicações da descoberta para a origem da vida no universo
A descoberta do açúcar no espaço reforça a hipótese de que moléculas fundamentais para o surgimento da vida podem ter se formado fora do Sistema Solar e viajado até a Terra por meio de cometas ou asteroides, há bilhões de anos. Essa teoria, cada vez mais sustentada por evidências científicas, ajuda a explicar como compostos essenciais à vida podem ter chegado ao nosso planeta antes mesmo do surgimento dos primeiros organismos vivos, consolidando o estudo da astroquímica como um campo essencial para compreender a origem da vida no universo.
