O Pix voltou ao centro das discussões no Brasil e no mundo após o governo dos Estados Unidos concluir uma investigação comercial que aponta o sistema de pagamentos instantâneos como prejudicial a empresas americanas. Mas afinal, quem criou o Pix, como ele funciona e por que se tornou alvo de uma disputa diplomática internacional? Entenda tudo sobre o tema.
O que é o Pix e quais são os seus números
O Pix é um sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central do Brasil que permite transferências entre contas em segundos, a qualquer hora do dia, todos os dias do ano, sem custo para pessoas físicas. Desde seu lançamento, tornou-se o meio de pagamento digital mais usado no país.
Os dados impressionam: mais de 170 milhões de pessoas físicas — cerca de 80% da população brasileira — já realizaram ao menos uma transferência pelo Pix. Até outubro do ano passado, mais de R$ 3 trilhões haviam sido movimentados pelo sistema. Em janeiro de 2025, foram registradas mais de 7 bilhões de transações no mês, e o recorde diário foi alcançado em 12 de dezembro de 2025, com 313 milhões de transações em um único dia.
Quem criou o Pix? A história completa
A disputa política sobre a criação do Pix ganhou força em 2025, com Lula e Flávio Bolsonaro trocando farpas sobre a paternidade do sistema. A resposta, porém, está nos registros do próprio Banco Central.
A ideia de um sistema de pagamentos instantâneos no Brasil surgiu em 2014, durante o governo Dilma Rousseff, mencionada em um relatório de vigilância do sistema de pagamentos. O desenvolvimento efetivo começou em maio de 2018, no governo Michel Temer, com a criação de um grupo de trabalho no Banco Central. Em dezembro de 2018, ainda na gestão Temer, foram definidos os requisitos fundamentais do sistema.
A infraestrutura tecnológica passou a ser construída a partir de outubro de 2019, já no governo Jair Bolsonaro. A marca Pix foi lançada em fevereiro de 2020, e o sistema entrou em operação plena em 16 de novembro de 2020. O Pix foi, portanto, desenvolvido ao longo de diferentes governos por técnicos do Banco Central — e não é obra exclusiva de nenhum presidente.
Por que os EUA atacam o Pix em 2025
A investigação americana, baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, conclui que o Brasil prejudica "injustamente as empresas americanas que atuam em serviços concorrentes de pagamento eletrônico." O relatório aponta que o Banco Central atua simultaneamente como regulador e operador do Pix, criando um suposto conflito de interesses.
Entre as críticas estão a exigência de que o Pix seja oferecido gratuitamente aos usuários e que ocupe posição de destaque nos aplicativos das instituições financeiras — o que, segundo os EUA, prejudica competidores como PayPal, Google Pay e Apple Pay. Como consequência, Washington propôs tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, com negociações previstas até 15 de julho de 2025.
A Febraban (Federação Brasileira de Bancos) defendeu o sistema, afirmando que as conclusões americanas foram baseadas em "informações incompletas" e que "o Pix é uma infraestrutura de pagamento, e não um produto comercial, que favorece a competição e o bom funcionamento do sistema de pagamentos."
Pix como referência mundial em pagamentos digitais
O sucesso do Pix transformou o Brasil em referência internacional em inovação financeira. O sistema impulsionou o crescimento de fintechs e bancos digitais brasileiros, que se expandiram inclusive para outros mercados, e inspirou países como a Colômbia a desenvolverem soluções semelhantes.
O Nobel de Economia Paul Krugman elogiou o Pix, sugerindo que o Brasil pode ter inventado o futuro do dinheiro. Ele destacou que o sistema está "conseguindo de fato o que os defensores de criptomoedas alegaram, falsamente, ser capaz de se alcançar por meio do blockchain — baixos custos de transação e inclusão financeira." Krugman comparou os 93% de brasileiros que usam o Pix com apenas 2% de americanos que utilizaram criptomoedas para pagamentos em 2024.
Especialistas consultados pela BBC News Brasil apontam que a pressão americana reflete uma disputa tecnológica mais ampla: "Estamos falando aqui de uma competição tecnológica, onde os EUA visam tirar qualquer tipo de tecnologia que possa oferecer algum tipo de inovação e que não esteja sendo gerida dentro do próprio país ou que não esteja sob controle dos EUA", afirmou Bruna Martins dos Santos, da organização internacional Witness.
O debate sobre o Pix vai além da política interna brasileira. O sistema se consolidou como um dos mais avançados do mundo em pagamentos instantâneos — e a disputa com os Estados Unidos é, acima de tudo, um reflexo do peso que essa tecnologia passou a ter no cenário global.
