Conheça o Zelle, o primo pobre do Pix citado por Eduardo Bolsonaro

 

O Pix, sistema de pagamentos instantâneos criado e operado pelo Banco Central do Brasil, virou alvo oficial do governo Donald Trump — e a polêmica ganhou novos contornos com declarações do ex-deputado Eduardo Bolsonaro sobre o Zelle, o sistema de pagamentos americano. Entenda o que está em disputa nessa tensão entre Brasil e Estados Unidos.


Eduardo Bolsonaro, o Zelle e a polêmica sobre o Pix


Em meio à pressão comercial dos EUA sobre o Brasil, Eduardo Bolsonaro (PL-SP) afirmou ao canal TMC News que os "EUA têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como por exemplo o Zelle", sugerindo que o Brasil poderia usar isso como argumento numa negociação com os americanos: "Então dá pra você ir para uma mesa de negociação com os americanos com bons argumentos."


A declaração foi interpretada por parlamentares do PT como uma proposta de entregar o Pix aos interesses americanos. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) chamou Eduardo de "entreguista" e a ex-ministra Gleisi Hoffmann afirmou que ele "quer trocar o nosso Pix pelo sistema americano chamado Zelle, como ponto de negociação pra retirar a taxação americana, que eles ajudaram articular." Pressionado, Eduardo voltou atrás e declarou nas redes sociais: "Sou pró-PIX."


Por que o governo Trump critica o Pix?


No documento que embasa a proposta de taxação de 25% sobre produtos brasileiros, o governo americano afirma que "o Brasil tem prejudicado injustamente as empresas americanas que atuam em serviços concorrentes de pagamento eletrônico, inclusive por meio de políticas que favorecem seu campeão nacional, o Pix." O texto ainda acusa o Banco Central de atuar com "conflito de interesses, na ausência de salvaguardas processuais adequadas", ao exercer papel duplo "como regulador e proprietário/operador" do sistema.


Segundo analistas, o que realmente preocupa Washington é o impacto do Pix sobre empresas como Visa e Mastercard. A jurista Camila Villard Duran aponta que o Pix "representa um modelo de infraestrutura pública, que reduz a dependência de redes privadas estrangeiras e concentra, no âmbito doméstico, o controle jurisdicional sobre dados e fluxos financeiros."


Pix x Zelle: comparação completa entre os dois sistemas


Entender as diferenças entre Pix e Zelle é fundamental para compreender o debate. Veja os principais pontos:


Operacional


O Pix é público, gerido pelo Banco Central, com adesão obrigatória para instituições financeiras com mais de 500 mil contas ativas.


O Zelle é privado, operado desde 2017 pela Early Warning Services, empresa copropriedade de sete grandes bancos americanos — Bank of America, Capital One, JPMorgan Chase, PNC Bank, Truist, U.S. Bank e Wells Fargo —, e sua adoção é opcional por cada instituição.


Usuários


O Pix é usado por mais de 170 milhões de pessoas no Brasil, representando 80% da população, e movimentou R$ 35,4 trilhões em 2025.


O Zelle registrou 151 milhões de usuários em 2024 e superou US$ 1 trilhão em transferências no mesmo período.


Pagamento


O Pix processa pagamentos em segundos, 24 horas por dia, 7 dias por semana, incluindo feriados.


O Zelle deposita o dinheiro "em poucos minutos", mas o Bank of America alerta em seu site que "em algumas situações, a instituição financeira do destinatário pode causar um atraso no processamento da transferência."


Taxa


O Pix é gratuito para pessoas físicas e MEIs.


O Zelle geralmente também não cobra tarifas de consumidores, mas a Early Warning Services ressalva que "normalmente não há tarifas" — o que significa que bancos individuais podem cobrar.


O Nobel de Economia Paul Krugman resumiu bem a comparação em 2025: "O Pix é muito mais fácil de usar. E, embora o Zelle seja grande, o Pix se tornou simplesmente enorme, sendo usado por 93% dos adultos brasileiros."


Por que o Pix incomoda os EUA além da concorrência comercial


A pressão americana sobre o Pix faz parte de um movimento mais amplo. O sistema brasileiro já havia sido citado em relatório do USTR de março de 2025, que lista barreiras comerciais de mais de 60 países. Fontes ouvidas pela BBC News Brasil apontam que o endurecimento do tom americano pode estar ligado ao fato de o Brasil ter bloqueado, na OMC, uma proposta dos EUA para estender a isenção de tarifas sobre serviços digitais como streamings, softwares e jogos.


Para especialistas, a disputa vai além da competição financeira. "O que está em jogo já não é apenas a concorrência entre empresas, mas o controle sobre infraestruturas consideradas como críticas", afirma Duran. Ela destaca que, na economia digital, "a moeda torna-se cada vez mais informação" e o controle sobre esses dados "passa a ser um elemento central do poder monetário estatal."


A Febraban defendeu o sistema e rebateu as críticas americanas, classificando as conclusões dos EUA como baseadas em "informações incompletas." A entidade reforçou que o Pix "é uma infraestrutura de pagamento, e não um produto comercial" e que não existe "qualquer restrição à entrada de novos participantes, de qualquer porte ou segmento da indústria financeira."


O Pix deixou de ser apenas uma ferramenta do dia a dia dos brasileiros. Em meio à guerra comercial entre Brasil e EUA, ele se tornou símbolo de soberania financeira — e o epicentro de uma disputa que mistura economia, política e geopolítica.



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