Ebola: doença volta a assustar, surto mata mais de 130 pessoas no Congo

 

Um surto de Ebola com mais de 131 mortes e 513 casos suspeitos foi declarado emergência de saúde pública de interesse internacional pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O epicentro é a República Democrática do Congo, mas a doença já se espalhou para Uganda, com dois casos confirmados e uma morte, e pelo menos seis cidadãos americanos foram expostos ao vírus. Entenda o que torna esse surto de Ebola diferente de todos os anteriores — e por que especialistas estão em alerta.


Cepa Bundibugyo: o que torna esse surto de Ebola mais perigoso


O surto atual é causado pela espécie Bundibugyo do vírus Ebola, uma cepa rara que não circulava há mais de uma década. Diferente das cepas mais conhecidas, o Bundibugyo apresenta desafios sérios: não existe vacina aprovada para essa variante, não há medicamentos desenvolvidos especificamente contra ela, e os testes de sangue convencionais para Ebola retornaram negativo nos primeiros casos — pois são calibrados para cepas mais comuns, como a Zaire. Isso atrasou o diagnóstico e permitiu que o vírus se espalhasse sem detecção por semanas. Nos dois surtos anteriores causados pelo Bundibugyo, aproximadamente um terço dos infectados morreu.


Pesquisadores estudam se a vacina existente para a cepa Zaire poderia oferecer alguma proteção cruzada, mas ainda não há confirmação científica para isso.


Como o surto de Ebola no Congo começou


O primeiro caso registrado foi o de uma enfermeira que desenvolveu sintomas em 24 de abril, na província de Ituri, no leste do Congo — sinal de que o vírus já se espalhava silenciosamente antes de qualquer alerta oficial. A enfermeira morreu em Bunia, capital da província, e seu corpo foi levado para Mongwalu, cidade mineradora de ouro onde a maioria dos casos foi reportada. O funeral, que reuniu grande número de pessoas, foi apontado pelo ministro da Saúde congolês, Samuel Roger Kamba, como um dos principais fatores de aceleração do contágio.


Outro obstáculo relevante foi a resposta inicial das comunidades afetadas. Segundo Kamba, muitas pessoas acreditavam se tratar de "bruxaria" ou de uma "doença mística" e buscaram tratamento com curandeiros e em centros de oração, em vez de procurar hospitais — o que atrasou o isolamento dos casos e o rastreamento de contatos.


Onde estão os casos: do Congo a Uganda e além


Os primeiros focos foram registrados em Mongwalu, Rwampara e Bunia. O surto, no entanto, já chegou a Goma, maior cidade do leste congolês com aproximadamente 850 mil habitantes, atualmente sob controle do grupo rebelde AFC-M23. Em Goma, o caso confirmado envolveu uma mulher que viajou para a cidade após a morte do marido por Ebola. Em Uganda, a capital Kampala registrou uma morte e tem outro paciente em tratamento — ambos eram congoleses que haviam viajado recentemente ao país.


O Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças classificou Uganda, Ruanda e Sudão do Sul como países de alto risco para propagação do vírus. Ruanda já reforçou a triagem nas fronteiras; Uganda confirmou mortes e adiou a peregrinação do Dia dos Mártires, feriado de 3 de junho que costuma reunir milhares de congoleses.


Zona de conflito dificulta combate ao Ebola


Um fator crítico nesse surto é o contexto geopolítico. Cerca de 250 mil pessoas estão deslocadas internamente devido ao conflito armado no leste do Congo, e o fluxo constante de pessoas atravessando fronteiras dificulta o rastreamento de casos. O grupo rebelde AFC-M23, que controla Goma, afirmou ter "ativado imediatamente" mecanismos de resposta ao Ebola em conjunto com serviços de saúde locais, mas nem o governo congolês nem os rebeldes confirmaram qualquer cooperação conjunta no combate à doença.


O que está sendo feito para conter o surto


A OMS e a Médecins Sans Frontières (MSF) já estão presentes na região, montando centros de tratamento e estruturando planos de resposta. O governo congolês enviou equipes com equipamentos de proteção para Bunia e disponibilizou número gratuito para reporte de sintomas. As recomendações às populações afetadas incluem: ligar imediatamente ao surgir sintomas, evitar contato com corpos de vítimas, não consumir carne crua ou mal cozida, e praticar distanciamento social.


Ebola é uma pandemia como a Covid-19?


Não. A própria OMS deixou claro que a declaração de emergência de saúde pública de interesse internacional não indica que o mundo está diante de uma nova pandemia global. O Ebola se transmite apenas por contato direto com fluidos corporais de infectados — sangue, vômito, secreções — e não por via aérea. O risco para regiões fora da África Oriental é considerado mínimo. Ainda assim, com uma cepa sem vacina, atuando em zona de conflito ativo e com casos já confirmados em dois países, o surto de Ebola no Congo segue sob monitoramento intenso de organizações de saúde ao redor do mundo.

Foto: SaúdeLAB


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