Um filme biográfico sobre um ex-presidente preso por tentativa de golpe de Estado, financiado por um banqueiro preso por fraude bilionária — e negociado pelo filho do protagonista. Essa é a história por trás de Dark Horse, produção de Hollywood que está no centro de uma investigação policial e virou assunto nacional.
Segundo apuração do The Intercept Brasil, Dark Horse, filme biográfico sobre a vida política do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi financiado pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do banco Master preso pela fraude fiscal que deixou um rombo de R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito do Brasil.
O volume de dinheiro envolvido impressiona. Pelo menos US$ 10,6 milhões — cerca de R$ 61 milhões em valores atualizados — haviam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações, para financiar o filme estrelado por Jim Caviezel. As conversas reveladas pelo jornal indicam ainda um cronograma para pagamento de parcelas e mencionam oito novos pagamentos que não foram confirmados.
A negociação do financiamento não passou por canais anônimos. O financiamento do filme foi negociado diretamente pelo pré-candidato à presidência da República Flavio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente condenado e preso por tentativa de golpe de Estado. Questionado sobre o assunto, o político confirmou que buscou financiamento privado para o filme sobre o pai, mas afastou a hipótese de irregularidades, dizendo que conheceu o banqueiro após o fim do governo de seu pai. Em vídeo, Flavio declarou: "Zero dinheiro público. Zero Lei Rouanet", referindo-se à lei federal de incentivo à cultura que permite destinar parte do imposto de renda a produções culturais.
Do lado artístico, o projeto conta com um elenco de peso. Jim Caviezel interpreta o ex-presidente Jair Bolsonaro, que atualmente cumpre pena em regime fechado após ser condenado a 27 anos e três meses de prisão por organização criminosa armada, golpe de Estado, tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito, dano ao patrimônio público qualificado pela violência e grave ameaça, e deterioração de patrimônio tombado. Caviezel é mais conhecido por seus papéis em A Paixão de Cristo e Som da Liberdade.
No elenco ainda estão Lynn Collins, Esai Morales e Felipe Folgosi como um policial federal. A obra é dirigida por Cyrus Nowrasteh e informações apontam que o roteiro foi escrito por Mário Frias, que foi Secretário Especial da Cultura no governo Bolsonaro.
Quanto ao conteúdo do filme, os detalhes que vazaram são curiosos. Segundo o Metrópoles, uma versão do roteiro obtida descreve cenas de ação ambientadas na Amazônia, envolvendo confrontos contra cartéis de droga ao lado de indígenas e xamãs. Outras informações dizem que o filme será focado no atentado que o ex-presidente sofreu em 2018, quando foi esfaqueado durante evento de campanha.
Por enquanto, a produção segue envolta em polêmica e incertezas: ainda não há data de estreia definida para Dark Horse. O que não falta, porém, é material para discussão — seja pelo contexto político do personagem retratado, seja pelas conexões financeiras que vieram à tona, colocando o projeto no radar de investigações policiais antes mesmo de chegar às telas.