Um estudo publicado no periódico científico BMJ Oncology acompanhou registros de câncer na Inglaterra por 18 anos — de 2001 a 2019 — e identificou alta consistente na incidência de 11 tipos de tumores entre adultos de 20 a 49 anos. O crescimento, de 1% a 3% ao ano, está mudando a forma como especialistas enxergam o câncer em jovens adultos e levantando perguntas urgentes sobre prevenção, rastreamento e saúde pública no Brasil.
Quais tipos de câncer estão aumentando em adultos jovens?
O estudo identificou crescimento nos seguintes tipos de câncer entre adultos jovens: colorretal, mama, endométrio, fígado, rim, pâncreas, oral, tireoide, mieloma múltiplo, vesícula e ovário. O câncer colorretal em jovens se destacou por seguir uma trajetória diferente da observada em adultos mais velhos, reforçando que esse aumento não é apenas reflexo de um envelhecimento populacional.
Médicos ouvidos pela BBC News Brasil confirmam que essa tendência já era percebida na prática clínica. "Temos visto pacientes cada vez mais jovens, mas por muito tempo isso foi tratado como exceção, casos isolados", afirma Raphael Brandão, chefe da área de oncologia da Rede São Camilo de São Paulo.
Obesidade e câncer: qual é a relação?
Entre os fatores de risco analisados — tabagismo, álcool, sedentarismo e dieta —, a maioria ficou estável ou melhorou ao longo do período. A obesidade foi o único fator com alta consistente em todo o período estudado, e sua relação com o desenvolvimento de câncer tem explicação biológica direta.
"Pacientes com obesidade e sobrepeso apresentam níveis elevados de insulina em circulação. A insulina é um potente hormônio indutor de crescimento e está relacionada, em alguns estudos, à inflamação crônica. A inflamação crônica, por sua vez, é um mecanismo já associado ao desenvolvimento de pelo menos 13 tipos de câncer", explica Carlos Gil Ferreira, CEO e diretor médico da Oncoclínicas.
No Brasil, o cenário é preocupante: cerca de 60% da população vive com sobrepeso, segundo dados do Vigitel divulgados em janeiro de 2026. O avanço da obesidade entre jovens, somado ao consumo crescente de alimentos ultraprocessados e ao sedentarismo, cria um terreno fértil para o aumento do risco oncológico.
Ultraprocessados e câncer: além da obesidade
Raphael Brandão chama atenção para um ponto que vai além do peso corporal. Um estudo publicado no BMJ em 2018 mostrou associação entre consumo de ultraprocessados e câncer mesmo após o ajuste para o IMC — sugerindo que o impacto desses alimentos sobre a saúde pode ser independente da obesidade em si.
"O ultraprocessado tem um efeito que parece ser independente do peso corporal", afirma Brandão, citando também possíveis alterações na microbiota intestinal e efeitos de aditivos alimentares sobre o metabolismo como mecanismos em investigação.
Câncer em jovens no Brasil: o que dizem os dados do INCA
O Brasil não possui um sistema de registro de câncer tão abrangente quanto o NHS britânico, o que limita comparações diretas. Ainda assim, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) vem sinalizando tendência de crescimento de casos em pessoas abaixo de 50 anos, inclusive para o câncer colorretal.
O relatório Estimativa 2026: Incidência de Câncer no Brasil indica que o país deve registrar cerca de 704 mil novos casos de câncer por ano no triênio 2023–2025 — número que deve saltar para aproximadamente 781 mil casos anuais entre 2026 e 2028. Cânceres de cólon e reto aparecem entre os mais incidentes em homens e mulheres no país.
"O Brasil não tem um sistema de registro de câncer tão capilarizado quanto o NHS inglês, o que limita comparações diretas. Sem dados nacionais robustos e sistematizados, fica difícil formular políticas específicas para esse tipo de tendência", afirma Ferreira.
Rastreamento de câncer: protocolos precisam mudar?
Um dos impactos mais diretos da tendência de aumento do câncer em adultos jovens é a necessidade de revisar protocolos de rastreamento. No Brasil, o rastreamento de câncer colorretal no SUS começa aos 50 anos — uma faixa etária desenhada com base em epidemiologias mais antigas.
"Quando tratamos um paciente mais jovem, o tempo de vida potencialmente ganho é muito maior, o que muda a equação de qualquer investimento em prevenção ou diagnóstico precoce", destaca Ferreira. A oncologia vem dedicando atenção crescente à chamada população AYA — sigla em inglês para Adolescents and Young Adults —, grupo que historicamente ficava numa zona de sobreposição entre a pediatria e a oncologia de adultos.
Quais são os sintomas de câncer em jovens que merecem atenção?
Especialistas reforçam que o aumento dos casos não deve ser lido como motivo de pânico. "Câncer nesses tipos e nessa faixa etária ainda é raro; o que o estudo mostra é que esses cânceres podem estar se tornando menos raros. A distinção parece sutil, mas é fundamental para uma comunicação responsável", alerta Ferreira.
A orientação é ficar atento a sintomas persistentes, como sangue nas fezes, alteração do hábito intestinal, perda de peso sem explicação, dores que não passam, fadiga excessiva ou aparecimento de nódulos. Nesses casos, a recomendação é buscar atendimento médico sem demora. O diagnóstico precoce de câncer continua sendo o fator mais determinante para as chances de cura, independentemente da idade.
