A nova temporada de Monstro na Netflix, dedicada a Lizzie Borden, leva ao público um dos crimes mais famosos da história americana, e muita gente quer saber o que é real e o que é invenção na série de Ryan Murphy. Lizzie Borden matou mesmo os pais? A resposta é que ninguém sabe ao certo: ela foi julgada e absolvida por um júri em junho de 1893 e nunca confessou nada, o que mantém o caso Borden como uma das maiores dúvidas da história dos Estados Unidos.
Assim como fez com Jeffrey Dahmer e os irmãos Menendez nas temporadas anteriores, Ryan Murphy pegou um caso real e o recheou de licenças criativas. A série de Lizzie Borden na Netflix imagina o que pode ter acontecido a portas fechadas na casa da família e mostra boa parte das personagens femininas como vilãs. A história percorre a infância de Lizzie, em meados do século 19, até a década de 1990, quando os assassinatos da família Borden atravessam gerações e inspiram outra assassina infame.
Entre os pontos que têm base na história real está o tio John Morse, irmão da mãe biológica de Lizzie e cunhado de Andrew Borden. Ele estava na casa no dia do crime, foi uma das últimas pessoas a ver o casal com vida e, por ser açougueiro e precisar de dinheiro, virou um suspeito recorrente entre os entusiastas do caso. Também é verdade que a atriz Nance O'Neil jantou com Lizzie, mas o encontro aconteceu em Maplecroft, a casa para onde Lizzie se mudou depois da absolvição, e não na residência dos assassinatos. A amizade entre as duas só começou em 1904.
A tentativa de envenenamento antes dos crimes é um dos pontos em aberto. Durante o julgamento, a acusação alegou que Lizzie tentou comprar ácido prússico para envenenar o pai e a madrasta na véspera dos assassinatos, mas os registros médicos da época atribuem o mal-estar da família a uma intoxicação alimentar causada pelo calor. Já o casamento de Andrew e Abby Borden não tem evidências concretas de infelicidade, embora o clima em casa fosse tenso. A união começou como um arranjo prático, dois anos após a morte da primeira esposa de Andrew, e não quando Lizzie tinha dois anos, como sugere a série. No julgamento, o médico da família descreveu a relação do casal como "cordial".
Entre as invenções da série está a crueldade de Abby, a madrasta de Lizzie. Na trama, ela humilha a enteada o tempo todo, mas historicamente a relação das duas era tensa e distante, motivada por dinheiro e herança, sem registros de abuso físico ou de maus-tratos a empregadas e enteadas. O romance entre Lizzie e a empregada Maggie, que planejam os assassinatos juntas, também não tem respaldo. A teoria já apareceu em outras produções, mas não há evidência de que Bridget Sullivan, a Maggie real, fosse homossexual ou de que sua relação com Lizzie fosse além de patroa e funcionária. O mesmo vale para o caso de Andrew Borden com a empregada e para a gravidez dela, que não têm qualquer base histórica.
A ligação com a serial killer Aileen Wuornos também é ficção: não há registro de que ela fosse fã de Lizzie Borden ou tenha se hospedado com a namorada na casa dela. A conexão só existe na série. O mesmo acontece com o caso Bertha Manchester, atribuído a Lizzie e Maggie na trama. Na vida real, Bertha, de 22 anos, foi morta a machadadas dias antes do julgamento, quando Lizzie estava presa. O responsável, José Correa de Mello, confessou o crime durante um roubo, sem qualquer ligação com o caso Borden.
Em resumo, a quarta temporada de Monstro parte de um crime real, mas preenche as lacunas da história com ficção. A absolvição de Lizzie, a suspeita sobre John Morse e o jantar com Nance O'Neil têm base nos fatos. Já o romance com Maggie, a gravidez da empregada, a crueldade de Abby e a visita de Aileen Wuornos foram criados para a série da Netflix.
