Redes sociais fazem tão mal quanto cigarro para crianças, alerta entidade médica do Reino Unido

 

O uso de redes sociais por crianças e adolescentes é tão prejudicial à saúde quanto fumar cigarros. Essa é a posição da Academy of Medical Royal Colleges, organização que representa entidades médicas do Reino Unido, apresentada em contribuição à consulta pública do governo britânico sobre o acesso de menores de 16 anos às plataformas digitais. A declaração reacende o debate global sobre saúde mental infantil, tempo de tela e regulação das big techs.


Médicos equiparam riscos das redes sociais ao tabagismo


Para a Academy of Medical Royal Colleges, o tema já se tornou uma "unanimidade" entre os profissionais de saúde — da mesma forma que orientações sobre não fumar ou usar cinto de segurança. A entidade recomenda que médicos incluam perguntas sobre tempo de tela e uso de redes sociais nas consultas com pacientes jovens, além de registrar possíveis danos para ajudar a dimensionar o problema. A psiquiatra infantil Emily Sehmer foi ainda mais direta ao afirmar à BBC que os perigos do uso excessivo de mídias sociais são "muito, muito piores" do que fumar, pois bastam segundos para uma criança ser exposta a conteúdos nocivos. "Está acontecendo cada vez mais cedo", alertou.


Reino Unido avalia proibição das redes sociais para menores de 16 anos


A consulta pública aberta pelo governo britânico desde março de 2026 recebeu 70 mil contribuições e está prestes a ser encerrada. Entre as medidas em análise estão limites de horário noturnos, desativação da rolagem infinita e da reprodução automática, verificações de idade mais rigorosas e uma possível proibição total das redes sociais para menores — modelo já adotado pela Austrália. A ministra de Tecnologia Liz Kendall confirmou que novas ações serão anunciadas até o final do ano. "A questão não é se vamos agir. Nós vamos agir", declarou à BBC, acrescentando que tomará medidas mesmo que as empresas de tecnologia resistam: "Ninguém vai me impedir de fazer o que eu acho que é certo para este país."


Famílias de vítimas pressionam por restrições mais rígidas


Familiares de jovens que morreram em decorrência do uso de redes sociais também participam ativamente do debate. Ellen Roome, mãe de Jools — que faleceu aos 14 anos em 2022 —, se reuniu com o primeiro-ministro Keir Starmer nesta terça-feira (27/05) para exigir que a idade mínima de acesso às plataformas consideradas prejudiciais seja elevada para 16 anos. "A mídia social é um produto e, como qualquer outro produto defeituoso que causa a morte de crianças, deve ser restringida até que as empresas responsáveis a consertem e provem que é seguro", afirmou.


Processo nos EUA contra Meta e YouTube vira marco histórico


Roome também destacou um caso recente nos Estados Unidos como evidência dos riscos. Um processo em Los Angeles resultou em veredicto inédito a favor de uma jovem que processou a Meta e o YouTube por vício em redes sociais desenvolvido na infância. O caso foi comparado às batalhas judiciais históricas contra a indústria do tabaco: concluiu-se que as empresas construíram intencionalmente plataformas viciantes, com recursos como a rolagem infinita projetados para manter usuários mais jovens engajados.


Divisão entre especialistas e dúvidas sobre eficácia da proibição


Nem todos os especialistas e ativistas defendem uma proibição total. Ian Russell, da Fundação Molly Rose, argumenta que o governo deveria aplicar as leis já existentes antes de adotar "medidas drásticas como proibições". Há também questionamentos sobre a eficácia do modelo australiano, já que relatos indicam que crianças naquele país estão contornando os bloqueios. A Meta, por sua vez, defende que a verificação de idade seja implementada no nível do dispositivo. Já o presidente-executivo do British Board of Film Classification (BBFC), David Austen, propõe que as plataformas adotem os mesmos critérios de classificação etária já usados no cinema: "Por que as empresas de mídia social não podem fazer o mesmo em termos de conteúdo? A resposta é que podem."


Com o encerramento da consulta pública e novas medidas prometidas para 2026, o Reino Unido se aproxima de decisões que podem transformar profundamente o acesso de crianças e adolescentes às redes sociais — e influenciar políticas de proteção digital ao redor do mundo.

Foto: Shutterstock


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